A gente contribui com o silêncio, vê?
Todos os ciclos
acelerados ou lentos.
Quando eu falei da ilha
você entende?
Eu falei do silêncio
dos gestos para não sofrer.
Se você bebe água e olha a Lua
se você sobe a ladeira
salta três vezes
pede a um santo atenção
nada vai acontecer
em todo sol
a tempestade é muito breve.
As ilhas também têm pele
voltam quando abrem a porta
se arrepiam no inverno
choram no verão.
Os cegos são de luz
iluminam os surdos poliglotas.
À noite, histórias em todas as línguas:
a ave que sopra o vento
a Terra que gira o Sol
a ilha que sustenta o mar.
Sonhos estranhos de dias estranhos.
Eu conheço três tipos de árvores
mas falaria o dia inteiro da amendoeira.
Eu sei como é a folha, eu já chutei
comi amêndoas.
Ouvi cigarras por anos.
Cento e vinte decibéis são o limiar da dor.
Por muito menos já gritei pela janela.
Nunca gritei contra cigarras.
Abaixa o som.
Nunca gritei sozinho
acho difícil rir sozinho.
Trecho do livro-poema “Silêncio”. Selo Puxad_nho, Pipoca Press, 2016. Mais informações aqui.
A versão em inglês de “Silêncio” pode ser lida no blogue de Rob Packer, que traduziu o poema.