09.03.16
Olho para a frente. É um corredor amplo de avião. Um Airbus, provavelmente agora em um lugar no Atlântico. Há no voo talvez menos de 150 pessoas – está muito vazio. Elisa dorme com um travesseiro verde sobre o rosto, de barriga para cima e braços cruzados, na fileira do meio do avião, na qual quatro poltronas, 30D, 30E, 30F e 30G, estão livres. Voamos de Lisboa ao Rio. Tudo está decadente e, infelizmente, é difícil refutar a ideia de que a TAP não vai bem. Os televisores não funcionam, nem as luzes para leitura, que atualmente são controladas por meio dessas telas (não sabia). “Houve uma pane”, diz a aeromoça, e era decolar com televisores e luzes ruins ou atrasar o voo para consertar o problema. Eu ouço a palavra “pane” e penso que ela nunca deveria ser dita dentro de um avião, ainda que seja para se referir a um problema no televisor. “Problema”, aliás, seria uma palavra mais adequada.
Ajusto a hora do relógio de pulso para o fuso do Brasil antes da decolagem, gesto inédito para mim, que sempre corrijo a hora apenas no local de destino. São 16h09 do Brasil enquanto escrevo e agora entramos em uma turbulência estranha. Certa vez, também em um voo entre Lisboa e Rio, a aeromoça disse que sempre há turbulência entre as Ilhas Canárias e a linha do Equador. Ou seja, há sempre turbulência em praticamente metade do voo de quase dez horas. Estamos há umas cinco no ar. Mal posso acreditar que ainda faltam mais cinco de viagem. Eu tenho pânico de avião, apesar de essa viagem – 23 dias em Lisboa, 3 em Madri e 4 em Amsterdã – ter sido, em função da quantidade de voos, uma terapia de choque. Melhorei. Ainda assim, sinto-me assombrado em momentos-chave, como na decolagem e nessas passagens turbulentas.
Elisa agora dorme de lado. Olho para a frente, e o avião finalmente parece estar na horizontal: o corredor é plano, e não uma pequena e incômoda ladeira. Dentro do avião, qualquer diferença daquilo que é costumeiro me desconcerta. Depois de tantas horas voando, estranho estar inclinado. Lembro-me do acidente da AirFrance, em que o piloto tentou aumentar a velocidade inclinando a frente do avião para cima, quando o certo em grandes altitudes é fazer justamente o contrário. Enfim, penso isso tudo e tento assegurar, por meio de algum ponto de referência fora do avião, que de fato estamos planos em relação ao solo. Do lado de fora, não há referência nenhuma. Não vejo o mar abaixo de mim, não há Sol nem Lua. É um cenário azul e cinza. Novamente, olho para a frente e digo para mim mesmo: o avião está normal. Subitamente me recordo das palavras do piloto, que disse que em algum momento da viagem subiria mais 2 mil metros (ou pés, nunca sei). Deve ter sido isso então, ele subiu, agora estamos planos.
Elisa é a única pessoa deitada na minha ala do avião que não parece um pedaço de massa disforme. Está de jaqueta preta, saia cinza florida na altura certa da cintura. Dorme arrumada. À sua frente, também em quatro lugares vazios, um senhor alto, com aliança mas sem mulher no voo, assemelha-se a um saco de pele sem ossos. Sua mão direita escorrega como a de um morto em uma mesa cirúrgica; tenho certeza de que, quando acordar, ficará bons minutos com o braço dormente até finalmente o sangue preencher os seus vasos sanguíneos. Talvez desperte por isso. Então o formigamento vai passar, ele se recuperará do susto momentâneo e voltará a dormir, aliviado com a retomada normal dos movimentos e sonolento pela boa onda que o alívio traz.
Na maior parte das telas está escrito “loading”, o que, somado às pessoas deitadas semimortas, empresta um ar ainda mais deprimente ao voo. Anseio pela noite, que vai demorar a chegar, uma vez que voamos contra o fuso horário. Anseio pela boa melancolia das últimas horas de voo antes de chegar ao Rio; observar as luzes de cidades que não sei quais são, apesar de saber que, sim, são brasileiras. Estou muito irritado por não poder ver na tela a posição do avião. Emociono-me sempre ao assistir, no mapa, à entrada no Brasil ou à mudança de hemisfério ao atravessar a linha do Equador. Neste avião, eu não sei de absolutamente nada. Tenho a Piauí em mãos, mas estou cansado e só tive força para ler o artigo do Karl Ove Knausgård. Ao menos, como sempre acontece comigo, ler um texto do Karl Ove desperta a vontade de escrever.
O senhor agora recolheu a mão morta (frustrou a cena dos vasos sanguíneos que supus há pouco) e a guardou dentro da calça. Está de barriga para cima. Elisa ainda está de lado. O avião está frio, cheio de uma tristeza ruim. Não fosse o fone de ouvido antirruído, presente miraculoso do meu irmão, ainda teria que conviver com o perturbador barulho da turbina. Na verdade, ainda ouço esse som quando, em função de alguns dos muitos movimentos inapropriados que podem ser executados dentro de um avião, esbarro em algo e o fone desliza sobre as minhas orelhas. Nesses momentos, o medo de voar volta instantaneamente. Descobri há pouco que um dos meus principais temores vem desse aboio ininterrupto das turbinas. Esses fones ajudam a mitigar boa parte do pânico, transformando aquela máquina gigante e, por isso, barulhenta em um meio de transporte até silencioso e, por dedução, não tão colossal nem tão improvável.
Apesar do isolamento acústico, ouço o ronco do senhor com as mãos dentro da calça. Ele acorda e se assusta com os próprios sentidos. Logo dorme novamente. Não deixo, evidentemente, de invejá-lo. Não há nada para fazer no avião, exceto não ler a Piauí, tentar escrever e contemplar o corredor com carpete cinza e azul, adornado com motivos verdes espalhados em ordem aleatória. Procuro descobrir algum padrão nas formas do carpete, mas não encontro, são quatro tracinhos verdes absolutamente sem sentido.
Pelo fato de o avião estar tão vazio, cada passageiro recolheu para si os travesseiros e os cobertores que sobraram. A consequência óbvia: vários cobertores vermelho-sangue estão agora no chão ao lado dos travesseiros. Os plásticos que os guardavam também estão no chão. A maioria das janelas está fechada. Eu abri a minha para poder ler o artigo do Karl Ove e, depois, para escrever. Voamos – esta é a minha impressão – sempre em uma cúpula de teto e paredes azuis e chão branco acinzentado. Essa imagem me inspirava. Hoje, como tudo neste avião, é só parte de uma paisagem desagradavelmente infeliz.
Depois de uma viagem incrível, porém difícil em função dos compromissos com o livro, da minha ansiedade crônica e de um frio de que não dava notícia, quero chegar, ainda que o voo não traga boa melancolia e inspiração, quero chegar de volta ao Rio.
Elisa, que ainda dorme, vira agora para o lado oposto. Se ficar de bruços, completará as quatro posições possíveis do corpo nesses bancos centrais. Várias pessoas começam a se levantar para ir ao banheiro ou simplesmente mexer o corpo. Não há sequer uma pessoa com cara descansada. Um rapaz passa pela quarta vez por mim; veio com um copo de água sustentado pelas mãos espalmadas em todas as ocasiões. É baixo, jovem e já um pouco careca; nem gordo nem magro, um pouco amorfo como todos aqui; tem cara triste. De repente, sinto a necessidade urgente de descobrir se ele é português ou brasileiro. No entanto, abro a janela. A luz de fora baixou um pouco, e o azul está mais escuro. Penso no encanamento para consertar, no nosso gato, em todos os cômodos da nossa casa (ainda não penduramos nenhum quadro), sinto uma coragem vibrante, ela me atravessa e some, mas não importa – às vezes intuo que só preciso de um desses raios impetuosos, como choques que ressuscitam corações. Às vezes acho que minha desatenção é uma busca por esses momentos: tão distraído apenas para me surpreender com esses segundos lúcidos e de força instantânea. Ou isso tudo é um grande acaso. Tudo é um grande acaso, claro, mas ao menos ser extremamente distraído me permite vislumbrar, com certa frequência, essas epifanias. Não raramente sou acordado, chamado à vida, por algum sentimento arrebatador. Talvez por ter o mapa com a rota do voo na cabeça (a tela ainda está em modo “loading”), certamente por saber para onde vamos, sinto claramente estar me deslocando em direção ao sul. Estou um pouco mais feliz.